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As quatro fadinhas do apocalipse

de Vera Mantero, 1989

Não encontro apontamentos nenhuns da altura e estou a tentar lembrar-me de onde veio esta peça e, entre outras coisas, surge-me esta ideia: depois de 5 anos de Ballet Gulbenkian, depois de 5 anos a dar à perna no Ballet Gulbenkian, resolvi sentar-me. Resolvi fazer uma peça em que as pernas desaparecem, são “cortadas”, negadas. Em que é impossível a estas mulheres arrancarem-se do chão, aparentemente deficientes. E em que há silêncio. Estar-se sentado em silêncio, estar-se sentado no silêncio. E dar lugar ao rosto, às mãos, aos braços, ao tronco. (Difícil não ver tudo isto como uma negação na maior parte do trabalho que tinha feito até àquela altura naquela companhia).

Há outras ideias que me surgem ao revê-la. O trabalho com o despojamento e o vazio. Uma certa lassidão, algo de absolutamente não espectacular, não performático, desprovido de dramatismos. Um tentar expor-se dentro de uma certa verdade, uma certa evidência. E alguma ironia, ou irrisão, uma certa dose de “parecer-se tonto”, parecer que não se sabe fazer. Dá-me ideia também que este resolver sentar-me é um “vir sentar-me à vossa frente para dizer”. Dizer destes estados acima descritos. É já uma enorme vontade de descobrir maneiras de dizer com a dança. Daí a frontalidade, daí as mãos e o rosto (todos três muito presentes em peças a seguir).
E depois convém talvez referir o gozo do uníssono e de uma musicalidade que vem toda ela do corpo.

Vera Mantero, Fevereiro de 1999

Ficha Artística

Coreografia
Vera Mantero
 
Interpretação
Filipa Francisco, Paula Castro, Teresa Prima , Vera Mantero
 
Luzes
João Paulo Xavier, a partir de um desenho original de Jorge Ribeiro
 
Figurinos
Nadia Lauro
 
Agradecimentos
João Fiadeiro, André Lepecki, Carlota Lagido e Francisco Camacho
 
Duração do espectáculo
15 minutos

Cronologia

Esta peça foi apresentada unicamente no 13º Estúdio Experimental de Coreografia do Ballet Gulbenkian, a 28 e 29 Julho 1989, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

(Não havia texto sobre a peça no programa do 13º estúdio experimental, só o título, a ficha artística e um enorme currículo da coreógrafa que ocupava a página toda, e da peça... só se sabia o que dela se visse)