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Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza

de Vera Mantero, 2006

Seis pessoas sentadas. Os seus corpos têm a palavra. O seu “devir junto” anuncia-se através de uma linguagem instável, um inglês com sonoridades singulares. As suas capacidades de comunicar são constantemente desafiadas. Eles navegam entre transparência e opacidade;
exercitam-se por entre a tecelagem dos laços, suspensos por um fio. Como exercer a situação teatral até ao esgotamento? Escolher um meio que nos é comum, mas que não dominamos. O “aqui e agora” que procuramos está tão alongado que já não há pertença. Está arrasado. Recomeçamos sempre, sem nunca voltar ao mesmo ponto.

Bojana Bauer

 

Um trabalho luminoso e refractário, Vera Mantero e cinco performers exploram uma só proposta quase completamente em torno da linguagem, ou antes, do discurso, mas também do resmungar, murmurar, rosnar, miar, zumbir, gaguejar e cantar. Gestos e dança emergem onde o corpo se transforma em ouvido ou numa caixa de ressonância. A peça abraça com alegria teatral um (im)provável futuro corpo social e não se esquiva ao literal e ao kitsch. A linguagem como possibilidade de dizer “nós” e assim afirmar ou denunciar a diferença real no mundo em que vivemos – ao nível político, este trabalho lembra-me a obra de Jean-Luc Nancy. Desde que colaboração e criação são processos sociais em si mesmos, “O Extremo Exercício” viajou muito entre a estreia em Brest e as perfomances em Bruxelas: de uma versão restrita que afirma o grupo como máquina coreográfica estranha, até uma versão desprendida e sumarenta com ponto de partida na liberdade do performer no diálogo com o público, porém como um outro corpo social. No entanto, comutando sempre potencialmente entre estes dois extremos, dando voz às energias prolongadas e às imaginações de um vasto espectro.

Jeroen Peeters

 

Quase em uníssono mas com diferentes sotaques e expressões faciais, possuem um discurso semelhante acerca de ideias profundas e banais, sem qualquer distinção. Não admira que depois de uma hora não cheguem a uma conclusão. Por isso, o único objectivo desta peça parece ser celebrar o simples facto de que público e performers estão juntos, contemplando-se mutuamente. “We are a group,you are a group...” regressa como o refrão na miscelânea de palavras. Deste modo, a actuação dos seis performers, os seus fatos excêntricos e a maneira como o público reage a tudo isto “faz” a peça...
... o discurso em si mesmo não acontece num espaço indiferente, mas sim em palco. E o palco é diferente de uma rua ou de uma praça. É um espaço vazio, sem significados ou utilizações preconcebidos, mas é exactamente por isso que gera grande espectativa. Quando a cortina sobe esperamos que tudo o que ali está para ser visto tenha um Significado com um S maiúsculo.
Ninguem tropeça num palco como faria na rua. Especialmente se o título da peça anuncia questões como A Morte de Deus ou o “extremo exercício da Beleza”.
Claro que isto é um discurso grotesco. Quem é que terá alguma coisa significante a acrescentar depois de tudo o que já foi dito e escrito sobre estas questões? Não postulamos Deus e a Beleza acima de tudo para impedir lacunas na nossa maneira de ver o mundo? Não serão estes espaços vazios onde todos projectamos, segundo os nossos gostos, o nosso próprio “sentido da vida”? O palco vazio encontra no trabalho de Vera Mantero o vazio das palavras: ela apodera-se desse espaço vazio no palco para insinuar o vazio de qualquer significado. Mas fá-lo sem qualquer angústia. A fala labiríntica que os performers produzem nas suas próprias maneiras singulares, demonstra que um grupo de pessoas “resulta”, mesmo sem Deus ou Beleza. Este é o significado da variante casual “we are a group, you are a group...”. Subitamente se torna “we are, you are... uma teoria, cheia de mentira”. Nada foi provado, mas “resulta”.
A mise-en-scène de Lauro expressa esta ideia de maneira convincente. Um forte regimento de spotlights emoldura o grande palco e deste modo quase reduz os actores a um detalhe na pintura maior. Um enorme objecto castanho, uma espécie de globo deformado, preenche o vazio atrás deles. A tensão entre o objecto colossal, no vazio igualmente colossal, e o murmúrio dos performers, é o que cria significado. Cada um por si nada significa...

Pieter T’Jonck

Ficha Artística

Direcção Artística
Vera Mantero

Interpretação e Co-Criação
Brynjar Bandlien, Loup Abramovici, Marcela Levi, Pascal Quéneau, Antonija Livingstone, (Antonija Livingstone foi substituída por Andrea Stotter), Vera Mantero

Concepção do Espaço e Figurinos
Nadia Lauro

Música ao vivo e Técnico de Som
Boris Hauf

Desenho de Luz
Jean-Michel Le Lez

Colaboração Dramatúrgica
Bojana Bauer

Produção Executiva
O Rumo do Fumo

Co-produção
Centre Chorégraphique National/Tours; Centre Pompidou - Les Spectacles Vivants / Festival D'Automne/Paris; Culturgest/Lisboa; Le Quartz/Brest; O Espaço do Tempo/Montemor-o-Novo

Apoio
Fundação Calouste Gulbenkian

Cronologia

26 Abril 2015, Live Arts Week IV, Bolonha/Itália
12 Junho 2010, Teatro Viriato, Viseu/Portugal
19 e 21 Julho 2009, Kalamata International Dance Festival, Kalamata/Grécia
5 Julho 2009, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães/Portugal
17 - 18 Junho 2009, InTransit, Haus der Kulturen der Welt, Berlim/Alemanha
1 - 2 Junho 2009, Festival Alkantara, Teatro Meridional, Lisboa/Portugal
2 Novembro 2007, Festival Trama, Fundação de Serralves, Porto/Portugal
3 - 4 Junho 2007, 24th Dance Week Festival, Zagreb/Croácia
15 Março 2007, Festival de Dansa...o no !, Mercat de les Flors, Barcelona/Espanha
23 - 24 Fevereiro 2007, Kaaitheater, Bruxelas/Bélgica
16 Fevereiro 2007, Teatro Municipal da Guarda, Guarda/Portugal
23 - 24 Novembro 2006, Culturgest, Lisboa/Portugal
15 - 18 Novembro 2006, Centre Pompidou/Festival D’Automne, Paris/França
Estreia - 8 - 11 Novembro 2006, Le Quartz, Brest/França