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Poesia e Selvajaria

de Vera Mantero, 1998

“Há hoje em dia no mundo uma corrente que é uma reivindicação de cultura, a reivindicação de uma cultura orgânica e profunda da cultura, que possa explicar a vida do espírito.
Chamo cultura orgânica a uma cultura baseada no espírito em relação com os órgãos, e o espírito banhando-se em todos os órgãos, e respondendo-se ao mesmo tempo.
Há nessa cultura uma ideia do espaço, e digo que a verdadeira cultura não se pode aprender a não ser no espaço, e é uma cultura orientada como o teatro orientado. Cultura no espaço quer dizer cultura de um espírito que não pára de respirar e de se sentir vivo no espaço e que chama a ele os corpos do espaço como os próprios objectos do seu pensamento mas que enquanto espírito se situa no meio do espaço, quer dizer no seu ponto morto.
É talvez uma ideia metafísica esta ideia do ponto morto do espaço pelo qual o espírito deve passar.
Mas sem metafísica não há cultura. E o que quer dizer esta noção do espaço lançado de repente na cultura senão a afirmação de que a cultura é inseparável da vida…
…a cultura é movimento do espírito que vai do vazio em direcção às formas e das formas entra no vazio, no vazio como na morte. Ser culto é queimar formas, queimar formas para ganhar a vida. É aprendermos a manter-nos direitos no movimento incessante das formas que destruímos sucessivamente. (…)
Contra pai, pátria e patrão… amor, espírito, sexualidade. (…)
Chamo hoje poesia ao conhecimento do destino interno e dinâmico do pensamento.“

Antonin Artaud in “Messages Révolutionnaires”


“Tornado um fabricante de rituais, o artista põe-se em posição de salvar a sociedade moderna do seu enfraquecimento simbólico. Cada ritual inventado faz do corpo lugar dos rituais possíveis duma metamorfose que se realiza sempre “no bom sentido”, no sentido duma libertação da influência dos tabus e das rédeas da moral, e não como uma prática de destruição nihilista dos valores. O que está em jogo é criar uma nova simbologia que rompa com a constância de uma ordem moral, regida por um sistema de valores que fecha o corpo num modelo da representação. O que está em jogo é portanto político… ”

Henri-Pierre Jeudy in “Le corps comme objet d’art”, 1998


“A geração X não tem, por mais contraditório que isso possa parecer, qualquer intenção de renunciar ao palco. Pelo contrário. Na era hiper-comunicativa da moderna electrónica e das tecnologias virtuais está a voltar ao teatro como um “media” no sentido mais alargado do termo. O palco é cada vez mais um refúgio vital, um “testing ground” para pontos de vista pessoais: a nossa essência individual, a nossa pulsação emocional, a nossa expressão física, a nossas crenças mais íntimas, a nossa orientação sexual e o nosso “background” sócio-cultural. Neste antigo e catártico campo de batalha os modernos nómadas e negociantes de almas não puseram de maneira nenhuma de lado os valores estéticos, porque a percepção que o auditório tem significa o mundo para eles (…)”.

Simon Kardum


à espera no consultório. uma televisão na sala de espera, ligada no canal Odisseia, se não me engano. era a odisseia do mágico houdini. fascinante. um homem que gosta de se agrilhoar, aprisionar, acorrentar, amordaçar, encarcerar, algemar (principalmente algemar) e de desaparecer completamente debaixo de água. escapar é a ideia central da vida dele. escapar-se. escapar de. os americanos tinham certamente gozo ao vê-lo enganar a polícia com os seus truques, mas os narradores do programa sublinharam o especial prazer que tinham certos outros povos (como na altura o povo alemão, que vivia sob uma ditadura) ao vê-lo dirigir-se à esquadra pedindo o especial favor de ser algemado e preso, para logo em seguida ridicularizar os chuis, soltando-se de todas as algemas e grades possíveis e imagináveis. o sr. houdini era obcecado pela publicidade. só visitava as esquadras de polícia acompanhado por um séquito de jornalistas. e fazia os seus truques diante de multidões, como aquele de se pendurar do alto de um arranha-céus de cabeça para baixo, enfiado dentro de um colete de forças. tinham vindo vê-lo morrer, dizia ele.
outra espera. esta na paragem do autocarro. sou daquelas pessoas que nunca apanham autocarros, nunca esperam por transportes. tenho transporte próprio. mas hoje esperei na paragem. e parei. a paragem não é só a do autocarro, é também a das pessoas. e parar, hoje em dia, é uma coisa muitíssimo agradável. ter de parar. As pessoas com transporte próprio nunca têm uma razão para parar. parei e fiquei a olhar para a rua. pode ser muito cansativo olhar para uma rua, sempre coisas a passarem à frente dos nossos olhos, um movimento incessante que insiste em não nos dizer nada. portanto decidi fixar o olhar, tentando não me distraír com informação inútil, a ver se via alguma coisa. à frente da paragem havia uma nesga entre dois prédios que me permitiu ver algumas estrelas. fiquei a olhar para elas, imóvel. sei que para as outras pessoas deve ser um bocado estranho ver alguém imóvel e a olhar fixamente, eu própria acharia estranho. mas para quê olhar para tudo, se não se vê nada?

Vera Mantero


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Liberdade. Imanência.
(de onde me surgiu esta ideia de liberdade?)
Liberdade como disponibilidade para as pulsões, disponibilidade para as ouvir e disponibilidade para as levar a cabo de alguma forma. Ouvir essas pulsões em nós, e abraçá-las, abre um campo enorme de possibilidades, cria uma energia para construir, dá uma sensação de sentido, há sentido para fazer as coisas, ou a energia cria sentido.
Gosto desta ideia, a energia cria sentido.
Pareceu-me que a liberdade é aquilo que torna possível entrar-se na imanência.
Provavelmente sem liberdade não se pode entrar nela.
Deve ser por isso que estou sempre a cair na ideia de abandono, um largar das amarras à nossa volta, na ideia de abandono e de abertura, e todas suas afins.

Vera Mantero

Ficha Artística

Direcção Artística
Vera Mantero

Performance e co-criação
Nuno Bizarro, Ana Sofia Gonçalves, Vera Mantero, Margarida Mestre, Frans Poelstra, Christian Rizzo

Assistência Artística
Lília Mestre

Concepção visual
Nadia Lauro

Figurinos
Nadia Lauro e toda a equipa

Luzes
Cathy Olive

Adereços e Contra-regra
Marta Rego

Banda Sonora
Christian Rizzo

Som, Direcção Técnica
Rui Dâmaso

Produção Executiva
EIRA / Delphine Goater / O Rumo do Fumo

Co-produtores
Instituto Português de Artes e Espectáculos / Centro Cultural de Belém/ Mergulho no Futuro-Expo 98 e EIRA.

Apoio
Centa, Casa de Mateus

Cronologia

19 - 23 Setembro 2001, Festival International de Nouvelle Danse, Montreal, Canadá
28 - 30 Maio 2001, Théâtre de la Ville, Paris, França
28 Outubro 2000, Teatro Carlos Gomes, Rio de Janeiro, Brasil (Miguel Pereira participou neste espectáculo em substituição de Christian Rizzo)
26 Outubro 2000,Teatro SESC Pompéia, São Paulo, Brasil (Miguel Pereira participou neste espectáculo em substituição de Christian Rizzo)
2 - 3 Julho 2000, Festival Montpellier Danse, Montpellier, França
11 - 12 Fevereiro 2000, Festival Danse(s) à Brest, Le Quartz, Brest, França
28 - 29 Outubro 1999, Moving Mime Festival, Tilburg, Holanda
16 Outubro 1999, Dietheater, Viena, Áustria
13 Setembro 1999, La Bâtie – Festival de Genéve, Geneva, Suiça
18 - 19 Agosto 1999, Internationales Tanzfest Berlin, TanzWerkstatt Berlin, Berlim, Alemanha
7 Maio 1999, Kunst – und Ausstellungshalle der Bundesrepublik, Bonn, Alemanha
26 - 27 Março 1999, Month of March - Mês de Vera, Culturgest, Lisboa, Portugal
1998, Balleteatro, Porto, Portugal
Estreia - 21 - 22 Agosto 1998, Festival Mergulho do Futuro, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal