© Park Sang Yun

Em Circulação > Talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois de Vera Mantero, 1991

Talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois

de Vera Mantero, 1991

'Talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois' é um solo estreado em 1991, criado para o Festival Europália na Bélgica (dedicado nesse ano a Portugal e que incluiu uma larga representação coreográfica portuguesa). Este solo tem um lugar cimeiro no percurso coreográfico de Vera Mantero. É um trabalho que já percorreu praticamente duas décadas e que, singularmente, continua vivo e a ser apresentado. Porquê?

Foi com este solo que a autora encontrou parte da sua identidade em termos de movimento, em termos de forma de estar em cena, em termos de instrumentos e elementos que utiliza para criar e actuar: um corpo que não descura os gestos, as mãos, o rosto, as expressões, que as inclui porque sabe que estes elementos fazem absolutamente parte do corpo-gente; que tenta constantemente agarrar aquilo que o atravessa, que tenta expor isso mesmo através das respostas de um corpo vibrátil; um corpo que embate contra o tempo-cadência e brinca com ele(s) como uma criança brinca com berlindes; um corpo que produz por vezes uma quase-fala, em sons que parecem querer ganhar contornos de palavras, em lábios que articulam palavras inaudíveis. Porque aconteceu isto a este corpo?

Escrevia Mantero na folha de sala nessa altura: “A minha relação com a dança gira à volta das seguintes questões: o que é que a dança diz? O que é que eu posso dizer com a dança? O que é que eu estou a dizer quando estou a dançar?”.  A capacidade e a incapacidade de a dança DIZER estavam no centro das preocupações criativas da autora à época (... não estarão ainda?). A estratégia de inclusão (nas acções, nos movimentos, nos impulsos) de outros materiais que não os habitualmente utilizados pela dança foi o recurso e a pesquisa que a autora empreendeu para forçar-empurrar-pressionar a dança a DIZER.

Esta peça tem também outra particularidade: foi desde sempre e até hoje uma peça improvisada e foi precisamente o ser improvisada que lhe permitiu ser peça. Ela é o resultado de impossibilidades e dificuldades criativas: antes de ser solo foi tentativa gorada de quarteto e antes de ser improviso foi tentativa gorada de solo coreografado. Perante todas estas dificuldades a autora “... não queria fazer esta peça. Felizmente houve alguém (o Bruno Verbergt, do festival Klapstuk) que me pôs um palco à disposição e me disse para fazer em cima dele exactamente aquilo que precisasse de fazer. Foi o que eu fiz”. A improvisação possibilitou-lhe minúcias, velocidades e liberdades que uma dança coreografada nunca permitiria. O encontro com “Ruby, my dear” de Thelonious Monk, na versão utilizada nesta peça, foi uma ajuda muito importante, que facilitou o movimento a este corpo em dificuldades. De tal maneira que foi (e é) necessário repetir três vezes a sua audição ao longo da peça. E a frase de Beckett em “À espera de Godot”, que dá o título a este solo, explicita ainda mais uma parte dessas dificuldades, ao propor que ela dance primeiro e pense depois; ainda na folha de sala original pode ler- se: “... para se ser metódico é preciso acreditar e eu tenho um problema de falta de crença. A arte, a criação, são das coisas que mais me interessam na vida, mas parece que, de cada vez que me ponho a fazer qualquer coisa nesse campo, deixo imediatamente de acreditar nelas. E depois acabo por deixar de acreditar na própria vida e noutras coisas por aí fora”...

Como já referido acima, um fenómeno algo raro e curioso se deu com este solo: a sua apresentação nunca foi interrompida, ele tem sido apresentado regularmente ao longo dos últimos vinte e seis anos. E se a dita falta de crença começou por produzir um solo algo angustiado e sofrido, essa apresentação contínua e repetida transformou o trabalho e transportou-o dessa zona de dor e angústia para uma zona bem mais luminosa, de humor e gozo, deixando no entanto intactas as suas estruturas e fundações.'

Ficha Artística

Concepção e Interpretação 
Vera Mantero
 
Cenografia
André Lepecki
 
Desenho de luz
João Paulo Xavier
 
Música
’Ruby, My Dear' de Thelonious Monk
 
Adaptação e operação de luzes
Hugo Coelho
 
Figurino
Vera Mantero
 
Produção 
Pós d’Arte, 1991
 
Itinerância
O Rumo do Fumo
 
Apoio financeiro
Instituto da Juventude
 
Outros apoios
Companhia de Dança de Lisboa
 
Duração do espectáculo
20 minutos
 
Uma encomenda do Festival Klapstuk 91 no âmbito da Europália Portugal 91

Cronologia

6 Maio 2017, La Friche/Marseille Objectif Danse, Marselha/França
24 Fevereiro 2017, ciclo Nova\Velha Dança/Associação Parasita, Teatro Sá da Bandeira, Santarém/Portugal
4 - 7 Outubro 2016, Le CND, Pantin, Île-de-France/França
21 Junho 2015, Parque do Convento, Fundão/Portugal
5 Outubro 2014, Festival Krakow Theatrical Reminiscences, Cracóvia/Polónia
6 Abril 2014, Festival Plastique Danse Flore, Versalhes/França
30 Junho 2013, Festival Extension Sauvage, Bazouge-la-Pérouse/França 
23 Outubro 2010, Festival Internacional de Dança, Évora/Portugal
10 Outubro 2010, Festival SIDance, Seoul/Coreia do Sul
29 Setembro 2010,  Southbank Centre, Londres/Inglaterra
7 Maio 2010, Teatro de la Laboral, Gijón/Espanha
24 Outubro 2009, Bienal de Par em Par do Ceará, Fortaleza/Brasil
19 - 20 Outubro 2009,  Festival Piccola Europa, Rocca dei Bentivoglio, Bolonha/Itália
17 Setembro 2009, Teatro da Cerca de São Bernardo - A Escola da Noite, Coimbra/Portugal
9 - 10 Setembro 2009, Centro Cultural de la Cooperación. Sala Solidaridad, Buenos Aires/Argentina
12 Julho 2008, Centro Cultural Vila Flor, no âmbito do evento “Vera Mantero, 20 anos a pensar primeiro e a dançar depois”, Guimarães/Portugal
12 - 13 Novembro 2007,  National Theatre Festival, Bucareste/Roménia
10 - 11 Outubro 2007, Idans Festival,  Istambul/Turquia
24 Setembro 2006, Teatro Camões, Lisboa/Portugal
8 Outubro 2005, Festival Tensdansa, Terrassa/Espanha
20 - 22 Maio 2005,  Dansens Hus, Oslo/Noruega
14 - 15 Janeiro 2005, Casa de América, Madrid/Espanha
16 - 17 Outubro 2004, Teatro Sérgio Porto, Rio de Janeiro/Brasil
2 - 3 Outubro 2004, Teatro Sesc Anchieta,  S. Paulo/Brasil
4 Setembro 2004, Teatro Apolo, Recife/Brasil 
17 Janeiro 2004, Kunstencentrum Vooruit, Ghent/Bélgica
19 - 21 Novembro 2003, Théâtre de la Bastille, Paris/França
4 Outubro 2003, Catania/Itália
1 Dezembro 2002, Festival Lignes de corps, Valenciennes/França
15 - 16 Novembro 2002,Teatro Viriato, Viseu/Portugal
1 Dezembro 2002, Festival Lignes de corps, Valenciennes/França
15 - 16 Novembro 2002, Teatro Viriato, Viseu/Portugal
28 Setembro 2002, Festival A Sul, Vila Real de Sto António/Portugal
5 - 6 Agosto 2002, Impulstanz, Viena/Áustria
5 Maio 2001, Auditório Municipal, Vila do Conde/Portugal
11 Janeiro 2002,  Jubilee Hall/ Singapura
5 Maio 2001, Auditório Municipal, Vila do Conde/Portugal
14 - 15 Setembro 2001, Mousonturm, Frankfurt/Alemanha
5 Maio 2001, Auditório Municipal, Vila do Conde/Portugal
23 Março 2001,  Cineteatro Avenida, Castelo Branco/Portugal
1 Novembro 2000 Kiasma Theater, Helsinkia/Finlândia
Junho 2000, Teatro Zagrebacko KazalisteMladih, 17th Dance Week Festival, Zagreb/Croácia
9 Outubro 2000, Festival City of Women, Ljubljana/Eslóvenia
5 Outubro 2000,  Mês de Dança contemporânea, Évora/Portugal
22 Setembro 2000, Festival Fringe, Tomar/Portugal
11 Agosto 2000, Festival 3 semanas 3 nomes, Ericeira/Portugal
27 Junho 1999,  Reggio Emilia, Teatri Cavalerizza, 'Dança- Sentieri Portoghesi', Itália
Abril de 1999, Wuk, Áustria/Viena
4 - 6 Março 1999, Culturgest, Mês de Março, Mês de Vera, Lisboa/Portugal
1 - 3 Setembro 1998, Centro Cultural de São Paulo, São Paulo/Brasil
10 Julho 1998, Festival Sguardi Insoliti, Agricantus, Palermo/Itália
20 - 21 Abril 1998, Centre de Développement Chorégraphique 
22 - 25 Abril 1998, Centre Georges Pompidou (“Solitipi”), Paris/França
27 Fevereiro 1998,  Festival Le Club des Cinq, Studio des Abbatoirs
21 Fevereiro 1998, Festival Le Club des Cinq, Onyx, Nantes/França
7 - 10 Outubro 1997, Fest. Int. de Nouvelle Danse  Montréal/Canadá
12 - 13 Julho 1997, Sommerszene Festival, Salzburgo/Áustria
14 Junho 1997, Fest. Tanztendenz, Siemens Kultur, Greifswald/Alemanha
18 - 20 Abril 1997,  Podewil, Berlim/Alemanha
10 Abril 1997, Tollhaus,  Kalrsruhe/Alemanha
14 Fevereiro 1997, Centre Culturel de Meylan, Grenoble/França
6 - 8 Dezembro 1996, Teatro La Imperdible, Sevilha/Espanha
16 Novembro 1996,  Bienal du Val-de-Marne, Fontenay-sous-Bois/França
1 - 2 Junho 1996, Londrina/Brasil
28 Maio 1996,  Pôle Sud, Estrasburgo/França
11 - 14 Abril 1996,  The Kitchen, Nova Iorque/Estados Unidos da América
6 Abril 1996,  The Dance Place, Washington/Estados Unidos da América
1995, Salle Patiño, Genève/Suiça
6 Abril 1996, The Dance Place, Washington/Estados Unidos da América
11 - 14 Abril 1996,  The Kitchen, Nova Iorque/Estados Unidos da América
1995, Nykytanssia Turussa, Turku/Finlândia
1995, Teatro Carlos Manuel, Sintra/Portugal
1995, Salle Patiño, Genève/Suiça
1995,  Objectif Danse, Marseille/França
1995, Balleteatro Auditório, Porto/Portugal
1994,  Festival New Moves, Glasgow/Grã-Bretanha
1994,  Snug Harbor Cultural Center, Staten Island/E.U.A.
1994  Festival Roma per la Danza/ Itália
1994, 1ª Mostra de Dança Contemporânea de Loulé/Portugal
1994,  Suzanne Dellal Center, Israel/Tel-Aviv
1993,  Festival Springdance, Utrecht/ Holanda
1993, Festival Internacional de Teatro, Teatro D. Maria II, Portugal/ Lisboa
1993, Festival Danças na Cidade Portugal/Lisboa
1993, Homenagem a Carlos Trincheiras, Teatro S. Luís, Lisboa/Portugal
1992, Festival Danse à Épinal/França
1992, St. Jacques de la Lande, Centre Culturel l'Aire Libre/França
1992, Festival Danse à Lille/França
1992,  Ménagerie de Verre. Paris/França
1992,  Tanzwerkstatt Europa, Munique/Alemanha
1992, Festival de Otoño, Teatro Pradillo, Madrid/Espanha
Estreia - 1991, Festival Klapstuk, Leuven/Bélgica
22
Julho
2017

Talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois de Vera Mantero

MUDAS. Museu de Arte Contemporânea da Madeira, Ilha da Madeira, Portugal

no âmbito de MUDAS.HOTsummer