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uma misteriosa Coisa, disse o e.e. cummings*

de Vera Mantero, 1996

Estou a escrever-te porque sinto que não me expliquei bem sobre porque criei esta imagem de uma mulher metade negra, metade branca (principalmente negra!). Do que me lembro agora foi de ter ficado muito impressionada, na história da Josephine Baker, com o impacto que o seu corpo teve na Europa (basicamente em França). Os homens ficaram loucos com ela, com aquela coisa exótica, aquela coisa louca, cómica e sexy (1). O seu corpo (quase nu) e as suas, digamos, dinâmicas (energia/movimento/comicidade) criou todo um frisson em torno dela. Logo, se quisesse trabalhar sobre ela eu teria que, de algum modo, trazer de volta o corpo dela, era incontornável. E, sendo branca, teria que me tornar negra para poder trazer de volta o seu corpo.

Claro que assim que pensei em pintar-me de negra adorei a ideia, porque na altura (e talvez ainda agora) interessava-me muito a ideia de metamorfosear o meu corpo. Adoro tudo o que seja mudar o nosso aspecto enqto seres humanos, mudar a nossa imagem, transformando o que somos habitualmente, sendo outros seres, ainda que por pouco tempo.

Assim que pensei nisso também gostei imenso da ideia porque me apercebi imediatamente do efeito fortíssimo que uma pessoa ter duas cores ao mesmo tempo iria criar. Especialmente ser negra e ser branca ao mesmo tempo. Já não há nem um lado nem o outro, há os dois lados numa única entidade, duas “raças” num só corpo. “Recebo a tua cor em mim”. Há ainda a vibração ou fricção que a impossibilidade e o paradoxo criam.

E, de certa forma, a Josephine Baker também se tornou meio negra, meio branca ao longo da sua vida, porque ela foi completamente assimilada pela cultura branca europeia.

E há ainda, pelo menos, mais uma razão para esta “mulher de duas faces”, que é eu ter de me confrontar com a “missão” de fazer um solo sobre alguém (já tive este problema ao fazer um solo sobre o Nijinsky): como faço para assumir esta missão? Falo apenas da outra pessoa? Ou deverei falar também de mim?

Como me posiciono no “meio” desta pessoa, no meio deste trabalho sobre esta pessoa? A mulher branca e negra é também uma resposta a esta questão, faço uma espécie de fusão.

Outra coisa: os negros têm uma História (terrível) de tentarem tornar a sua pele branca. E eu sabia que estava a virar a história de pernas para o ar ao pintar-me de negra.

(1) É por isso que e.e.cummings escreveu sobre ela o seguinte: “uma misteriosa Coisa, nem primitiva nem civilizada, ou para além do tempo, no sentido em que a emoção está para além da aritmética”.

carta de Vera Mantero a Aylin Ersoz

* o que ele disse de facto sobre a Josephine:
"uma misteriosa Coisa, nem primitiva nem civilizada, ou para além do tempo, no sentido em que a emoção está para além da aritmética”.

 

O solo "uma misteriosa Coisa, disse o e.e. cummings*" foi estreado em janeiro 1996, para a "Homenagem a Josephine Baker", uma iniciativa da Culturgest em Lisboa. Na sua visão da vida e da obra da bailarina e cantora negra da primeira metade do século XX, Vera Mantero optou por uma abordagem que vai para além da figura de Josephine Baker. Para o programa ela escreveu: "É uma coisa que eu gostava de encontrar ou de criar, um amplo território em que a riqueza de espírito reinasse. (...) Este espírito de que falo não tem vontade nenhuma de anular o corpo, nem vergonha nenhuma do seu desejo e do seu sexo, o que este espírito de que falo tem vontade de anular é a boçalidade, a assustadora burrice, a profunda ignorância, a pobreza de horizontes, o materialismo, etc. etc. (infelizmente a lista tem ar de ser longa...).

"Uma impossibilidade, uma má-vivência, uma tristeza, uma ausência, um desgosto, uma incapacidade, atrozes", são algumas das palavras que se repetem, com uma insistência crescente, ao longo de todo o espectáculo, "em que Vera Mantero se equilibra precariamente sobre uns pés de cabra movimentando-se ao ritmo da dificuldade que as palavras enunciam sem conseguir arredar os pés da condenação a que permanecem pregados. Exasperante corporização de um mal-estar que, como se sabe, começa sempre por ser um não saber o que se há-de fazer com o corpo», descreve Alexandre Melo no Expresso. E conclui: «Duas hipóteses para descrever esta situação genérica, geral, civilizacional: há qualquer coisa que falta. Ou, então, talvez melhor: falta qualquer coisa que não há».

Texto do dossier de imprensa do Festival Danças na Cidade 1996

Ficha Artística

Concepção e Interpretação
Vera Mantero

Caracterização
Alda Salavisa (desenho original de Carlota Lagido)

Adereços
Teresa Montalvão

Luzes
João Paulo Xavier

Adaptação e operação de luzes
Hugo Coelho

Produção executiva
Forum Dança
 
Itinerância
O Rumo do Fumo
 
Apoio
Casa da Juventude de Almada, Re.al / Amascultura
 
Produção
Culturgest, Lisboa, 1996 / 'Homenagem a Josephine Baker'
 
Duração
20 minutos

Cronologia

6 Maio 2017, La Friche/Marseille Objectif Danse, Marselha/França
24 Fevereiro 2017, ciclo Nova\Velha Dança/Associação Parasita, Teatro Sá da Bandeira, Santarém/Portugal
4 - 7 Outubro 2016, Le CND, Pantin, Île-de-France/França
26 Junho 2016, Festival Extension Sauvage, Château de la Ballue, Bazouges-la-Pérouse/França
16 Outubro 2015, A Moagem, Fundão/Portugal
31 Maio 2015, Maria Matos Teatro Municipal, Lisboa/Portugal
6 Dezembro 2014, Teatro Rivoli, Porto/Portugal
5 Outubro 2014, Festival Krakow Theatrical Reminiscences, Cracóvia/Polónia
12 Abril 2013, Teatro Municipal de Almada, Almada/Portugal
26 Junho 2013, INFANT Festival, Novi Sad/Sérvia
4 Novembro 2012, Festival B.A.D./La Fundición, Bilbau/Espanha
14 Janeiro 2012, Centro Párraga, Murcia/Espanha
29 - 30 Janeiro 2011, Festival Escena Contemporanea, Madrid/Espanha
10 Outubro 2010, Festival SIDance, Seoul/Coreia do Sul
29 Setembro 2010, Southbank Centre, Londres/Inglaterra
17 Setembro 2010, Festival Materiais Diversos, Minde/Portugal
14 Agosto 2010, Festival Escrita na Paisagem, Évora/Portugal
7 Maio 2010, Teatro de La Laboral, Gijón/Espanha
7 - 8 Novembro 2009, Festival Panorama de Dança 2009, Rio de Janeiro/Brasil
24 Outubro 2009, Bienal de Par em Par do Ceará, Fortaleza/Brasil
19 - 20 Outubro 2009, Festival Piccola Europa, Rocca dei Bentivoglio, Bolonha/Itália
18 Setembro 2009, Teatro da Cerca de São Bernardo - A Escola da Noite, Coimbra/Portugal
9 - 10 Setembro 2009, Centro Cultural de la Cooperación. Sala Solidaridad, Buenos Aires/Argentina
12 Julho 2008, Centro Cultural Vila Flor, no âmbito do evento “Vera Mantero, 20 anos a pensar primeiro e a dançar depois”, Guimarães/Portugal
8 Dezembro 2007, Le Vivat, Armentières/França
12 - 13 Novembro 2007, National Theatre Festival, Bucareste/Roménia
10 - 11 Outubro 2007, IDans Festival, Istambul/Turquia
8 Outubro 2005, Festival Tensdansa, Terrassa/Espanha
20 - 22 Maio 2005, Dansens Hus, Oslo/Noruega
18 Março 2005, Le Lieu Unique, Nantes/França
14 - 15 Janeiro 2005, Casa de América, Madrid/Espanha
16 - 17 Outubro 2004, Festival Rio Cena Contemporânea, Teatro Sérgio Porto, Rio de Janeiro/Brasil
4 Setembro 2004, Teatro Apolo, Recife/Brasil
14 - 15 Agosto 2004, Festival des Arts Vivants, Nyon/Suíça
6 - 8 Fevereiro 2004, Culturgest, no âmbito do ciclo História da Dança/Homenagens, Lisboa/ Portugal
17 Janeiro 2004, “Connexive #1: Vera Mantero”, Vooruit, Gent/Bélgica
4 Outubro 2003, Teatro Zó, Catania/Itália
19 - 20 Setembro 2003, Casa de Teatro, Sintra/Portugal
18 Junho 2003, Mês de Dança, Teatro Garcia de Rezende, Évora/Portugal
30 Janeiro 2003, Tanzquartier, Viena/Áustria
1 Dezembro 2002, Espace Pier Paolo Pasolini, Valenciennes/França
15 - 16 Novembro 2002, Teatro Viriato, Viseu/Portugal
5 - 6 Agosto 2002, Impulstanz, Viena/Áustria
Outubro 2001, Le Quartz, Brest/França
17 - 18 Agosto 2001, Fest. Bellonne-Brigittines, Chappelle des Brigittines, Bruxelas/Bélgica
14 Julho 2001, Teatro do Campo Alegre, “Dia e Vento”, Porto/Portugal
10 Março 2001, Fest. Panaceia (Spangberg/Gerstmeier), Teatro Backstage, Estocolmo/Suécia
2 Dezembro 2000, Forum Culturel, “Transgressions” (carte blanche Tomeu Vergès), Blanc-Mesnil (arredores de Paris)/França
1 Novembro 2000, Kiasma Teateri, Helsínquia/Finlândia
9 Outubro 2000, Festival City of Women, Ljubljana/Eslovénia
7 Junho 2000, 17th dance week festival, ZeKaem, Zagreb/Croácia
18 Maio 2000, Festival Choré-Graphiques, Thêatre Louis Jouvet, Tours/França
16 Maio 2000, Pôle Sud, Estrasburgo/França
12 Maio 2000, Centre Culturel Triangle, Rennes/França
10 - 11 Setembro 1999, L’Usine, Festival de La Bâtie, Genève/Suíça
23 - 25 Agosto 1999, Podewil, TanzWerkstatt Berlin, Berlim/Alemanha
27 Junho 1999, Teattro Cavallerize, Regio-Emilia/Itália
30 Maio 1999, Festival Art Danse, Dijon/França
8 Maio 1999, KunstMuseum Bonn, Bona/Alemanha
24 Maio 1999, Tanzsprache Wuk, Viena/Áustria
4 - 6 Março 1999, Culturgest, Lisboa/Portugal
9 Outubro 1998, Auditório do Conservatório, 4a Mostra de Dança Contemp., Devir, Faro/Portugal
1 - 3 Setembro 1998, Centro Cultural de S. Paulo, S. Paulo/Brasil
20 - 21 Abril 1998, Centre de Développement Chorégraphique, Toulouse/França
27 Fevereiro 1998, studio CNDC l’Esquisse, Angers/França
29 Novembro 1997, Ballet Teatro Auditório, Porto/Portugal
12 Outubro 1997, Kunstlerhaus Mousonturm, Frankfurt/Alemanha
12 - 13 Julho 1997, Sommerszene Festival, Salzburgo/Áustria
23 Maio 1997, Centre Culturel Aragon, Tremblay-en-France/França
1 Abril 1997, Rennes/França
14 Fevereiro 1997, Grenoble/França
14 - 17 Janeiro 1997, Thêatre de la Bastille, Paris/França
13 - 15 Dezembro 1996, Festival DanzarTeatro, Sardenha (Sassari e Cagliari)/Itália
26 - 27 Novembro1996, Festival Danças na Cidade, Lisboa/Portugal
26 Outubro 1996, Limelight, Kortrijk/Bélgica
5 - 6 Setembro 1996, Fest. Bellonne-Brigittines, Bruxelas/Bélgica
3 Maio 1996, Hippodrome, Festival Tendanses Nord, Douai/França
Estreia - 11 - 14 Janeiro 1996, Culturgest, Lisboa/Portugal
21
Outubro
2017

uma misteriosa Coisa, disse o e.e. cummings* de Vera Mantero

Centro Cultural de Lagos, Lagos, Portugal

uma iniciativa casaBranca, no âmbito do Festival Verão Azul

Noite partilhada com a apresentação de I AM HERE de João Fiadeiro

Conversa com os artistas após o último espectáculo