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Era um peito só cheio de promessas

de Miguel Pereira

A pretexto da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães, pretendo realizar a criação de um espectáculo que reflicta o legado e as consequências desse feito na nossa História.

“Esta viagem foi o corolário da descoberta de novas passagens marítimas e de novas rotas comerciais, do reconhecimento do valor científico dos astrónomos, cartográficos e geográficos. Permitiu o contacto com novas realidades, culturas e costumes, fauna e flora, trouxe novos valores e contribuiu para o conhecimento nas mais diversas áreas do saber, cultura, história, teologia, linguística, botânica e zoologia.”* 

Pode-se olhar para este acontecimento hoje de diferentes perspectivas, desde o feito extraordinário alcançado, com tudo o que isso contribuiu para a ampliação da nossa concepção do mundo, ao desenvolvimento do nosso conhecimento em vários domínios até aí desconhecidos ou escassos, podendo até ter um olhar mais distante e crítico, tendo em conta as implicações ideológicas associadas hoje a esta parte da nossa História. Há certamente bastantes reflexões e ilações a fazer no âmbito político, cultural e histórico de todo este processo, mas sem dúvida que a nível artístico pode proporcionar um território bastante fértil para questionar-nos enquanto povo, cultura e sociedade, de donde vimos, o que somos e o que nos constitui, e como projectamos o futuro. 

“Em 1519, quando Fernão de Magalhães iniciou a sua epopeia de navegação em busca das Ilhas Molucas, ricas em especiarias, idealizando e protagonizando a primeira viagem de circum-navegação do mundo, nunca poderia imaginar que esta sua proeza iria alterar definitivamente o paradigma geográfico da época: confirmava-se que a terra não era plana. Com esta viagem iniciava-se uma nova era e uma nova concepção do mundo: o mundo da globalização e do conhecimento universal.”*

Magalhães tem como objectivo ampliar o seu mundo indo à procura, é certo, de especiarias, mas acabando por promover e transformar a própria configuração do mundo que até aí existia. Deste ponto de vista podemos dizer que inaugura os conceitos de “globalização” e “universalidade”, hoje tão incrementados nas nossas culturas. E descobre novos mundos, novas realidades, confronta-se com o “outro”, diferente dele, arrisca-se na procura, acabando mesmo por ser vítima da sua própria curiosidade (Magalhães morre numa emboscada antes de chegar ao seu destino final).

É este lugar do “risco” e da curiosidade aquilo que define também o fazer artístico, sendo por isso a sua génese e a sua razão vital. Podemos mesmo olhar para o seu processo como uma espécie de viagem que se percorre rumo a esse desconhecido, uma tentativa de ultrapassar os limites do nosso entendimento físico e intelectual, uma experiência de descoberta, explorando novas possibilidades, “novos mundos”. Como artista, gosto de me colocar nesse lugar, percorrer esses caminhos improváveis, encontrar o outro, diferente, descobrir-me e ser descoberto, prolongar-me naquilo ou naquele que não conheço e que me surpreende. Navegar, andar, seguir, rasgar, tentar, errar, atravessar, cruzar, avançar, recuar. Assumindo que o destino final possa ser alterado e/ou desviado. 

Ao longo do meu percurso artístico, fui também viajando e conhecendo novas culturas, linguagens, saberes que me fizeram confrontar com os limites do meu corpo e do meu mundo, abrindo-me novas possibilidades. A dança tem sido esse veículo, uma linguagem que permite a universalidade, uma língua que se desdobra e encontra pontes, extensões e se multiplica.

Olhando para alguns dos lugares por onde Fernão Magalhães e a sua equipa passaram, na sua tentativa de alcançar as Ilhas Molucas, apercebo-me da coincidência com alguns dos países com os quais eu próprio tive a oportunidade também de conhecer, descobrir e partilhar experiências, seja através dos meus próprios trabalhos seja na colaboração ou formação que fiz em diversas ocasiões (Brasil, Uruguai, Chile, por exemplo). Encontrei nessas viagens artistas que me estimularam e com os quais criei laços de interesse e empatia. Esta é, talvez, a oportunidade certa, para desenvolver um trabalho que, dentro deste contexto, permita o encontro e a cooperação entre criadores e intérpretes portugueses e sul americanos, assim como com entidades culturais de alguns destes países..

Miguel Pereira

*Citações do Testemunho de Alberto Laplaine Guimarães, Secretário-Geral da Câmara Municipal de Lisboa, sobre o VI Encontro da Rede Mundial de Cidades Magalhânicas em Lisboa, Janeiro de 2017.

Ficha Artística

Direcção
Miguel Pereira
 
Apoio à Dramaturgia
Marcelo Evelin
 
Interpretação e co-criação
Joaquín Cruz Marín, Rafael Silva Provoste e Miguel Pereira
 
Desenho de Luz
Leticia Skrycky
 
Música e Sonoplastia
Diogo Alvim
 
Assistência
Luna Anais
 
Produção
O Rumo do Fumo
 
Co-produção
São Luiz Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto
 
Apoios
Auditorio Nacional del Sodre (Uruguai), Câmara Municipal de Lisboa / Divisão de Acção Cultural / Direcção Municipal de Cultura, CAMPO | gestão e criação em arte contemporânea (Brasil), Casa da América Latina (Portugal), Embaixadas de Portugal no Brasil, no Chile e no Uruguai/Camões I.P., Festival de Artes Cielos del Infinito (Patagónia), Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal), INAE - Instituto Nacional de Artes Escénicas (Uruguai), NAVE (Chile)
 
22 - 02
Julho - Agosto
2019

Nova criação de Miguel Pereira no âmbito da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães

Residência Artística - Campo, Teresina, Brasil

co-produção Teatro Municipal do Porto e São Luiz Teatro Municipal

29
Julho
2019

Peça Feliz entrevista performativa entre Marcelo Evelin e Miguel Pereira sobre a criação Let's get global!

Campo, Teresina, Brasil

no âmbito do Festival Laís

30 - 11
Setembro - Outubro
2019

Era um peito só cheio de promessas nova criação de Miguel Pereira no âmbito da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães

Residência Artística - NAVE, Santiago, Chile

co-produção Teatro Municipal do Porto e São Luiz Teatro Municipal

mostra informal: 10 Outubro às 20h

11 - 29
Novembro
2019

Era um peito só cheio de promessas nova criação de Miguel Pereira no âmbito da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães

Residência Artística - INAE, Montevideu, Uruguai

co-produção Teatro Municipal do Porto e São Luiz Teatro Municipal

06 - 07
Dezembro
2019

Era um peito só cheio de promessas nova criação de Miguel Pereira no âmbito da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães

Estreia - Sala Hugo Balzo, Auditorio Nacional del Sodre Dra. Adela Reta, Montevideu, Uruguai

co-produção Teatro Municipal do Porto e São Luiz Teatro Municipal

no âmbito do programa O Rumo do Fumo - 20 anos

20h30