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Não há fumo sem fogo

 

Uma oportunidade para conhecer um espetáculo por dentro

Programa de aproximação à dança contemporânea para jovens dos 15 aos 18 anos

Formulário de inscrição https://forms.gle/ogDdGwwDad9QFHKZ7

Inscrições até 18 janeiro

Programa gratuito

 

Programa de aproximação à dança contemporânea para jovens dos 15 aos 18 anos, composto por 8 encontros entre fevereiro e março de 2021, para acompanhar os ensaios e apresentações de Era um peito só cheio de promessas, do coreógrafo Miguel Pereira, sob a orientação de Henrique Furtado Vieira.

Este espetáculo foi criado livremente pelo coreógrafo Miguel Pereira a partir da vida de Fernão Magalhães, no âmbito das celebrações dos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação ao globo.
O coreógrafo fez residências artísticas no Brasil, Chile e Uruguai, onde reinterpretou a viagem de Fernão de Magalhães, e termina agora a criação do espetáculo em Lisboa.

O acompanhamento desta criação é composto por 8 encontros compostos por dias de observação e de práticas várias (expressão corporal, análise, crítica e discussão).

Calendário de encontros:

  1. Lenha - Primeiros encontros - 5 e 6 de fevereiro no Espaço da Penha
  2. Faísca - Ensaios em estúdio - 19 e 20 de fevereiro no Espaço da Penha
  3. Fogo - Ensaio geral e espetáculos (grupo dividido) - 4 a 7 de março no São Luiz Teatro Municipal
  4. Cinzas - Últimos encontros - 12 e 13 de março no Espaço da Penha

O Rumo do Fumo organiza este programa de aproximação à dança contemporânea segundo as normas da Direção Geral da Saúde, para prevenção e controlo da propagação de Covid-19. Os encontros presenciais poderão ser adaptados ou realizados por videoconferência, se necessário.

 

Sobre a criação Era um peito só cheio de promessas

A pretexto da comemoração dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães, pretendo realizar a criação de um espetáculo que reflita o legado e as consequências desse feito na nossa História.

Esta viagem foi o corolário da descoberta de novas passagens marítimas e de novas rotas comerciais, do reconhecimento do valor científico de astrónomos, cartógrafos e geógrafos. Permitiu o contacto com novas realidades, culturas e costumes, fauna e flora, trouxe novos valores e contribuiu para o conhecimento nas mais diversas áreas do saber, cultura, história, teologia, linguística, botânica e zoologia.*

Pode-se olhar para este acontecimento hoje de diferentes perspetivas, desde o feito extraordinário alcançado, com tudo o que isso contribuiu para a ampliação da nossa conceção do mundo, ao desenvolvimento do nosso conhecimento em vários domínios até aí desconhecidos ou escassos, podendo até ter um olhar mais distante e crítico, tendo em conta as implicações ideológicas associadas hoje a esta parte da nossa História. Há certamente bastantes reflexões e ilações a fazer no âmbito político, cultural e histórico de todo este processo, mas sem dúvida que a nível artístico pode proporcionar um território bastante fértil para questionar-nos enquanto povo, cultura e sociedade, de donde vimos, o que somos, o que nos constitui, e como projetamos o futuro.

Em 1519, quando Fernão de Magalhães iniciou a sua epopeia de navegação em busca das Ilhas Molucas, ricas em especiarias, idealizando e protagonizando a primeira viagem de circum-navegação do mundo, nunca poderia imaginar que esta sua proeza iria alterar definitivamente o paradigma geográfico da época: confirmava-se que a terra não era plana. Com esta viagem iniciava-se uma nova era e uma nova conceção do mundo: o mundo da globalização e do conhecimento universal.*

Podemos dizer que Magalhães inaugura os conceitos de “globalização” e “universalidade”, hoje tão incrementados nas nossas culturas, e descobre novos mundos, novas realidades, confronta-se com o “outro”, diferente dele, arrisca-se na procura, acabando mesmo por ser vítima da sua própria curiosidade (SPOILER ALERT: Magalhães morre numa emboscada antes de chegar ao seu destino final).

É este lugar do “risco” e da curiosidade aquilo que define também o fazer artístico, sendo por isso a sua génese e a sua razão vital. Podemos mesmo olhar para o seu processo como uma espécie de viagem que se percorre rumo a esse desconhecido, uma tentativa de ultrapassar os limites do nosso entendimento físico e intelectual, uma experiência de descoberta, explorando novas possibilidades, “novos mundos”. Como artista, gosto de me colocar nesse lugar, percorrer esses caminhos improváveis, encontrar o outro, diferente, descobrir-me e ser descoberto, prolongar-me naquilo ou naquele que não conheço e que me surpreende. Navegar, andar, seguir, rasgar, tentar, errar, atravessar, cruzar, avançar, recuar. Assumindo que o destino final possa ser alterado e/ou desviado.

Ao longo do meu percurso artístico, fui também viajando e conhecendo novas culturas, linguagens, saberes que me fizeram confrontar com os limites do meu corpo e do meu mundo, criando novas possibilidades. A dança tem sido esse veículo: uma linguagem que permite a universalidade, uma língua que se desdobra e encontra pontes, extensões e se multiplica.

Miguel Pereira

 

*Citações do Testemunho de Alberto Laplaine Guimarães, Secretário-Geral da Câmara Municipal de Lisboa, sobre o VI Encontro da Rede Mundial de Cidades Magalhânicas em Lisboa, janeiro de 2017.