Estreada em 1998 no âmbito do Festival Mergulho no Futuro, no Pequeno Auditório do CCB, Poesia e Selvajaria é uma das criações mais emblemáticas de Vera Mantero. A peça nasce do espanto perante a condição humana – a capacidade de criar o sublime lado a lado com o brutal – e afirma-se como uma procura de liberdade através do corpo. Um corpo despojado de códigos, aberto ao desconhecido, que se move com a ingenuidade de um ser primordial, à descoberta de si, dos outros e do mundo. Em cena, um grupo de intérpretes habita um espaço de transgressão sensível, propondo uma "selvajaria positiva": um estado de escuta instintiva, onde se experimentam novas formas de existir e de comunicar, para lá da palavra. A proximidade física com o público convida a um envolvimento mais directo e visceral. «Somos povos presos aos nossos corpos. Somos sedentários, cerebrais, comunicamos sobretudo através da palavra», afirma Mantero. Esta peça é, acima de tudo, um convite à sua libertação.
Em 2026, a peça volta ao palco da sua estreia, no Pequeno Auditório do CCB, contando com parte dos elementos do elenco original, a que se juntam alguns novos criadores e colaboradores.
Liberdade. Imanência.
(de onde me surgiu esta ideia de liberdade?)
Liberdade como disponibilidade para as pulsões, disponibilidade para as ouvir e disponibilidade para as levar a cabo de alguma forma. Ouvir essas pulsões em nós, e abraçá-las, abre um campo enorme de possibilidades, cria uma energia para construir, dá uma sensação de sentido, há sentido para fazer as coisas, ou a energia cria sentido.
Gosto desta ideia, a energia cria sentido.
Pareceu-me que a liberdade é aquilo que torna possível entrar-se na imanência.
Provavelmente sem liberdade não se pode entrar nela.
Deve ser por isso que estou sempre a cair na ideia de abandono, um largar das amarras à nossa volta, na ideia de abandono e de abertura, e todas suas afins.
Vera Mantero
Notas:
A conversa com os artistas no dia 8, moderada por Ana Pais, terá lugar na Blackbox do CCB. Os interessados deverão seguir as indicações da frente de sala para se dirigirem ao local após o espectáculo.
A sessão do dia 9 de janeiro será gravada para fins de arquivo d’O Rumo do Fumo. Atendendo à disposição do público em palco, alguns espectadores poderão ser captados nas imagens de vídeo. Os espectadores que não autorizem a sua eventual inclusão na gravação deverão, por favor, informar a Frente de Casa do CCB antes do início do espetáculo.