A admiração pelo trabalho singular e robusto de Vera Mantero e pela poesia acutilante das suas interrogações e proposições motivou o nosso convite. Não lançámos qualquer questão-farol pois quisemos abrir um campo livre, a desenhar pelos seus métodos de pesquisa e composição, para o encontro com as realidades pessoais, sociais e culturais que a Companhia Maior incorpora. Mas este verão chegou às livrarias um título que diz muito sobre o enclave onde a idade maior está situada e sobre o qual nos temos debruçado:
“Numa sociedade em que tudo o que não é absorvido na lógica capitalista de valorização é empurrado para o estatuto de inferior e deficiente, também a velhice nunca pode ser outra coisa senão uma deficiência e algo de perturbador” (Velhos Supérfluos, Andreas Urban, 2024, Antígona)
A Companhia Maior demonstra o valor do envelhecimento criativo para a saúde, bem-estar e coesão social, e a importância da sua grande visibilidade em palco. Assim, contraria o estereótipo idadista que acentua a fraqueza, dependência ou inutilidade das pessoas maiores, retirando-lhes o direito à felicidade. Ora, como cantavam os Titãs criticando o assistencialismo à pobreza: "a gente quer a vida como a gente quer... quer bebida diversão e arte... quer inteiro e não pela metade" (Comida, 1989). E então surge a pergunta que encontramos noutro livro: "Ser feliz é imoral?" (António P. Ribeiro, 2000, Cotovia). São ideias que pairam na identidade e pensamento atual da nossa companhia.
Paula Varanda, Direcção da Companhia Maior